• Estela Takahachi

Logtechs 2020: visão geral do ecossistema de startups de logística no Brasil

Atualizado: 20 de Dez de 2020

Apesar de 2020 ter iniciado com um cenário de incertezas e o setor logístico ter sido afetado com o fechamento das fronteiras e restrições de circulação devido a pandemia, a capacidade de adaptação e a busca pela digitalização de muitos players logísticos caminhou juntamente com a crescente demanda da sociedade pelo abastecimento de produtos médicos e hospitalares, alimentos e itens de higiene etc. Além disso, com o alargamento das restrições de circulação da população, o comércio eletrônico atingiu recordes de acessos e vendas e, com isso, ajudou a movimentar ainda mais o setor. Dentre estas movimentações estão as Startups e Logtechs com soluções disruptivas para o setor de logística e supply chain e que hoje somam aproximadamente 300 no Brasil.

Mapeamento das Startups e Logtechs Brasileiras 2020

No levantamento feito em Novembro de 2020 pela GMC dentre 330 startups e logtechs, 276 foram analisadas e notou-se que 54 fecharam ou foram compradas/incorporadas por outras empresas. Já havíamos publicado as matérias Last Mile: Tendências no Pós-Pandemia (Novembro de 2020) e 20 cases de inovação em logística e supply chain (Outubro de 2020) onde trouxemos exemplos de algumas empresas como Via Varejo, Mercado Livre e Magazine Luiza que adquiriram logtechs especializadas em last mile, a iFood que adquiriu startup de Inteligência Artificial, novamente a Magazine Luiza que adquiriu startup de operação logística para operar no modo "factory to consumers", além das empresas que estão se digitalizando ainda mais com as diversas startups do mercado.

Neste mapeamento, verificou-se que quase 67% possuem sedes na região Sudeste, 24,4% no Sul e 8,6% no Norte, Nordeste e Centro Oeste juntos. Proporcionalmente aos números gerais de startups brasileiras onde São Paulo abriga 2.677 startups, seguido por Minas Gerais (782), Rio Grande do Sul (594), Paraná (574), Santa Catarina (551) e Rio de Janeiro (469). A figura 1 ilustra essa distribuição.

São Paulo concentra quase 50% de todas as startups brasileiras voltadas ao setor logístico.


Figura 01 - Distribuição das logtechs por região, (GMC, Novembro 2020 )

O mapeamento das funcionalidades das startups considerou as informações disponíveis nos sites oficiais de cada empresa em Novembro de 2020. A figura 2 ilustra como as especialidades estão distribuídas no eixo Sul-Sudeste com grande destaque a Minas Gerais que ocupa a segunda posição no ranking em número de startups, posição alcançada graças ao chamado "ecossistema de inovação" que o Estado desenvolveu nos últimos anos incluindo a concentração de 11 Universidades Federais, o maior número de qualquer outro Estado Brasileiro.


Figura 02 - Percentual de startups do eixo Sul-Sudeste por área de atuação

(GMC, Novembro 2020)


Muitas startups oferecem mais do que uma funcionalidade e muitas destas funcionalidades abrangem diversos pontos da gestão da cadeia de suprimentos. Na figura 3 vemos que quase 67% das soluções estão concentradas nas operações de entrega e estoque.



Figura 03 - Áreas de atuação das logtechs brasileiras (GMC, Novembro 2020)

A figura 04 mostra o ranking das funcionalidades mais ofertadas ao mercado.



Figura 04 - Principais soluções das startups e logtechs mapeadas (GMC, Novembro/2020)



Rastreamento e geolocalização são as funcionalidades mais ofertadas pelo mercado de startups muito impulsionadas com a crescente necessidade de se obter maior controle da operação, principalmente aquela que está diretamente ligada à entrega ao cliente. Na figura 04 vemos que quase 40% das startups possuem soluções destinadas à rastreabilidade de entrega, mas vale mencionar que dispositivos de rastreabilidade de ativos, rastreabilidade de operação warehouse e industrial e rastreabilidade de time de campo somam juntos 7% de startups que oferecem este tipo de funcionalidade. Já a geolocalização aparece em 23,5% das startups, sendo ela via dispositivos GPS, telemetria e de localização pela rede 3G/4G para pátios e docas, ativos, produtos e veículos. As foodtechs, apesar de possuírem rastreamento e geolocalização dentro de seu modelo de negócio, foram analisadas de forma separada já que o core business é o food delivery, sendo este ocupante da 14a. colocação do ranking.

Além de obter controle da operação do ponto de vista do embarcador, o rastreamento também é importante ao consumidor e muitas empresas estão percebendo o que André Santos, executivo do Mercado Livre e expert em marketplaces vem afirmando nas inúmeras palestras que foi convidado, que "as pessoas não compram produtos, elas compram códigos de rastreamento". O consumidor tem um novo comportamento e espera que lojistas assumam o compromisso de venda e passar tal confiança através de um código de rastreamento. O consumidor quer saber todas as etapas que o produto passará após realizar a compra online, ou seja, quer saber onde está o produto, o momento da postagem e quando vai chegar a seu destino. Empresas que não perceberem esta necessidade do consumidor, estão fadadas ao fracasso.

Os registros dos dados envolvidos na operação é a terceira funcionalidade mais ofertada, sendo que tais registros referem-se a: desempenho e usabilidade, qualidade e produtividade tanto do equipamento/máquina (veículos ou ativos) quanto de pessoas. Além disso, inclui registros das etapas de entregas incluindo as rotas percorridas e o detalhamento do tempo executado.

Algumas startups utilizam tais registros para realizarem análises preditivas e o uso de inteligência artificial para tomada de decisões rápidas e em tempo real e principalmente tendo como objetivo o controle de custos.

No Brasil o modal mais utilizado é o rodoviário que responde por 75,9% dos serviços de transporte utilizados por embarcadores, sendo que o transporte de movimentações de longa distância e mobilidade urbana correspondem a 63,5% do custo logístico total. Com a precariedade e pouco investimento em infraestrutura logística no Brasil, as empresas acabam gastando em média 12,37% do seu faturamento bruto com custos logísticos, algo em torno de 15,5 bilhões de reais, segundo os dados apurados entre 2015 a 2017 em matéria da Veja de Abril de 2018. Para ter como base comparativa, os Estados Unidos destinam 8,5% do faturamento das empresas e a China, 10%. Seguindo os comparativos, porém em relação aos investimentos em infraestrutura logística, no Brasil eram dedicados 0,8% do PIB até 2018 e apesar de ter elevado este número para 1,87% do PIB em 2019, países como China e Índia comumente já estavam destinando 2,5% há anos.

Cada vez mais as questões legais governamentais (PNRS - Política Nacional de Resíduos Sólidos Lei nº 12.305 de 2 de agosto de 2010, decreto Presidencial N9177 de 2017 e etc) relacionadas ao meio ambiente entram em pauta nos planejamentos estratégicos das empresas bem como para atender às exigências do consumidor, que busca por empresas sustentáveis e com aplicação em economia compartilhada. Ao mesmo tempo, com o aumento de compras online e a impossibilidade do consumidor não conseguir visualizar produtos fisicamente, acaba levando-o a acionar cada vez mais os serviços de trocas e devoluções. Por estes motivos, a Logística Reversa ocupa o quarto lugar no ranking e dentre as startups, cerca de 30% são destinadas a trocas de devoluções e as demais em logística reversa de resíduos, pós consumo, ativos e embalagens retornáveis e materiais para reciclagem.

A roteirização é predominantemente oferecida por startups especializadas em roteirização de cargas, mas há muitas especializadas em last mile, gestão de frota e rastreadores de cargas que já oferecem esta funcionalidade em conjunto, o que manteve este requisito em quinto lugar entre as funcionalidades mais ofertadas.

Dentre as 52 startups que possuem soluções para fretes, a cotação de frete é a funcionalidade mais oferecida ao mercado, já que vem se tornando um desafio cada vez mais crescente para quem oferece o serviço e para quem o solicita, visto que cada vez mais o consumidor espera não mais pagar pelo envio de suas compras.

Em uma pesquisa levantada pela Mercado e Consumo feita pela National Retail Federation nos Estados Unidos em 2019, mostrou que 75% dos consumidores desejam que haja opções de entregas gratuitas em suas compras online, inclusive para compras abaixo de USD 50. Em 2018 a percepção era de que 68% dos consumidores desejavam não pagar o frete de entrega de suas compras online. Muitos dos que responderam à pesquisa indicaram que preferem buscar no varejista mais próximo à sua localidade a pagar pelo frete.

Outro dado interessante levantado pela pesquisa da National Retail Federation mostra que para os consumidores, saberem os custos de entrega antes mesmo de chegarem à página de checkout é fator determinante para a decisão de compra, com 65% indicando que procuram os produtos com a indicação de frete grátis para adicionar os itens aos carrinhos de compras online.

Reforçando esta tendência, a Agência DW fez uma pesquisa que em 2017 cerca de 82% dos consumidores brasileiros que entraram em sites de compras não efetuaram compras, sendo que 60% da taxa de abandono está relacionada ao custo com frete ou taxas relacionadas. Este percentual é ainda maior quando analisado por região do Brasil, sendo que os consumidores do Norte e Nordeste possuem uma desistência de 60% a mais que as regiões Sul e Sudeste, até por conta dos centros de distribuição estarem afastados destas regiões.

Mais da metade das 41 startups que utilizam soluções IoT - Internet of Things são especializadas em gestão do ativo e logística reversa em pontos que se completam, já que sensores de identificação de resíduos, identificação de odores e identificação de nível de de preenchimento de lixeiras utilizadas para reciclagem ou retorno de descartáveis são as maiores aplicações do IoT. Já as demais startups que utilizam IoT estão aplicando-a em monitoramento de movimentação dentro de armazéns, otimização industrial e smartlockers.

Vale dizer que em meados de 2019 foi publicado no DOU - Diário Oficial da União o decreto presidencial que institui o "Plano Nacional de Internet das Coisas" com o objetivo de fomentar e viabilizar o IoT no Brasil, através da livre concorrência, livre circulação de dados e proteção de dados pessoais considerando o estabelecimento de uma LGPD - Lei Geral de Proteção de Dados. Neste primeiro momento houve a priorização em 4 áreas: agronegócios, saúde, cidades inteligentes e indústria.

Os produtos e devices relacionados a IoT no Brasil devem passar pela homologação da Anatel para posterior certificação, sendo este o maior temor para as empresas envolvidas já que pode acontecer um grande gargalo.

Apesar de ainda poucas empresas oferecerem soluções de smart picking ou movimentação e expedição de produtos automatizada, a tecnologia está cada vez mais presente na Gestão de estoque contribuindo com o seu controle, análise de dados para predição de demanda, monitoramento da operação e inventário.

As plataformas de gestão da frota também ganham destaque incluindo todos os assuntos para mantê-la em atividade como gestão de documentação, diário de bordo, histórico de infrações, etc.

A gestão da jornada de motoristas e times de campo também está sendo incrementada com o uso da tecnologia, sendo possível distribuir tarefas, monitorar comportamentos e áreas abrangidas e até tempo ocioso, tudo em tempo real. Desta forma os gestores que optam pelo uso deste tipo de plataforma e dispositivos conseguem determinar melhor os objetivos de produtividade e custo com folha de pagamento.

A Inteligência Artificial aos poucos vem crescendo em diversas aplicações, incluindo: seleção de transportadoras para contratação de frete, planejamento e otimização de rotas, alertas de infrações e condução não autorizada em gestão de frotas, inventário de estoque, identificação de pessoas e produtos bem como análise de qualidade, identificação de padrões de consumo para reduzir rupturas e/ou excesso de produtos.

E por fim, a gestão de ocorrências que através das tecnologias aplicadas como rastreadores ou apps para motoristas, possibilita uma gestão ainda mais participativa durante a entrega do que costumava ser.


Conclusão


As soluções via devices, dispositivos, smartphones, plataformas, antenas, RFiD, IoT e etc que permitem o monitoramento "real time" das operações logísticas são sem dúvida as aplicações mais demandadas no momento que não só permitem a informação que o consumidor precisa, mas maximizam a eficiência da operação logística. Outra grande demanda que sempre esteve presente em operações logísticas é o controle e redução de custos, algo que a tecnologia está cada vez mais envolvida.


O mapeamento mostra que a oferta de startups vão de encontro com as atuais necessidades das empresas, percepção obtida na Pesquisa GMC 2020 onde redução de custos, seguida da necessidade de adequar as operações às mudanças de negócio e aumento de visibilidade e flexibilidade foram e são os principais objetivos na implementação de inovações disruptivas em logística e supply chain.



Referências bibliográficas


  1. DOU - DECRETO Nº 9.854, DE 25 DE JUNHO DE 2019

  2. Fontes de pesquisas de startups: Revista Mundo Logística, Startups Cubo, Liga Insights, StartSe, Inovabra, Liga Ventures, consultas Google. O mapeamento das funcionalidades das startups foi coletado através de consultas de seus sites, informações de Novembro/2020/

  3. AnyMarket - Entrevista exclusiva: André Santos, autor de SuperVendedores do Mercado Livre e Outros Marketplaces, Setembro de 2017

  4. Santo, Gilmara em Veja - Gastos com logística consomem 12,37% do faturamento das empresas, Abril de 2018

  5. Estado de Minas, Caderno Economia - Inovação: Minas tem quase 800 startups e é segundo estado no ranking nacional, Julho de 2020

  6. Mercado e Consumo - Pesquisa NRF: consumidores desejam cada vez mais receber frete grátis em compras online, Novembro de 2020

  7. Agência DW - O impacto do frete na decisão de compra no e-commerce, Agosto de 2020

  8. G1 - Investimento em infraestrutura no Brasil precisa mais que dobrar, aponta estudo, Setembro de 2019

  9. Política Nacional de Resíduos Sólidos - LEI Nº 12.305, DE 2 DE AGOSTO DE 2010.

  10. DECRETO Nº 9.177, DE 23 DE OUTUBRO DE 2017

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