• Gisela Mangabeira Sousa

Panorama da supply chain de medicamentos no Brasil

Atualizado: Jun 16

Diferente de muitos, o setor de saúde tem crescido nos últimos anos apesar da crise e tem previsão de intensificar esse crescimento com a melhoria da economia e, principalmente, com o envelhecimento da população. Além do crescimento da demanda, as mudanças no cenário desse segmento fizeram com que a operação logística e as discussões ao redor da cadeia de suprimentos se intensificassem. Podemos dizer que há duas mudanças importantes para o reposicionamento da relevância da logística e supply chain no setor: a liberação da venda de medicamentos genéricos, em 1999, e similares no país e a formação e o agrupamento dos clientes em players maiores. Essa alteração no cenário do setor vem gerando mudanças nas práticas nas operações logísticas.


Mudança no portfólio de produtos:

Há menos de 10 anos atrás, os medicamentos vendidos no país eram apenas os conhecidos como “referência” que tinham margens mais altas e pouca concorrência. Nesse contexto, a representatividade dos custos logísticos era mais baixa, chegando a ser para várias das grandes indústrias menos de 3% do faturamento. Essa situação fazia com que o esforço para redução desses custos dentro das contas logísticas ficasse para último plano. O portfólio de produtos vendidos pelas indústrias farmacêuticas mudou muito suas características nos últimos anos e nesse contexto, a representatividade dos custos logísticos subiu de forma significativa e fez com logística entrasse na lista de custos a se discutir e reduzir. Além disso, a mudança de portfólio tem provocado discussões sobre adequabilidade do nível de serviço e também da gestão dos diferentes canais dado que a disponibilidade dos produtos passou a ser ponto mais que crucial para efetivação das vendas. Os genéricos são produtos com menor margem onde a representatividade dos custos logísticos no faturamento é mais alta, normalmente maior que 3%, podendo chegar a cerca 8%, conforme verificado na pesquisa “Panorama de Supply Chain para Saúde” desenvolvida pelo ILOS com indústrias farmacêuticas. O crescimento e a representatividade atual dos genéricos podem ser visualizados na figura 1.

Figura 1 – Vendas de medicamentos de 2014 a 2017 Fonte: Sindusfarma/ILOS


Outro ponto importante a se ter em mente é o crescimento da venda de produtos que não necessitam de prescrição e são de uso livre. Muitos desses itens têm características de mercado similares a produtos do setor de bens de consumo, como higiene e beleza, com margens menores e maior concorrência. Para esse grupo de produtos a representatividade dos custos logísticos tende a ser mais alta, assim como para o segmento de cosmético, higiene e beleza onde é em média 8,5% (Panorama de Custos Logísticos – ILOS). Segundo o Panorama ILOS de Supply Chain para Saúde, as farmácias entrevistadas indicaram que para não perder venda oferecem produtos genéricos, similares e, por último, em caso não tenham produtos buscam o produto em outra farmácia. Essa situação confirma o contexto de venda mais complexo e competitivo a partir da disponibilidade de genéricos e similares. (Figura 2)

Figura 2 – Orientação das farmácias para não perder venda em caso de falta de um item

Fonte: Panorama ILOS de Supply Chain para Saúde



Mudanças no cenário de clientes:

Outra mudança importante para o segmento de saúde é no perfil dos players atuantes no mercado. Atualmente, conforme o Panorama ILOS de Supply Chain para Saúde, cerca de 70% das vendas da indústria são realizadas de forma indireta, via distribuidor. No entanto, 60% das indústrias já indicam realizar vendas diretas para redes de farmácia, 50% para governo e hospitais e 36% para farmácias pequenas. (Figura 3)



Figura 3 – Canais de distribuição de medicamentos no Brasil Fonte: Panorama de Supply Chain para Saúde – ILOS, 2015


O crescimento das redes de farmácias, a criação de grandes grupos hospitalares e a organização do governo em centros de entrega, ou mesmo a formação de grupos de compra faz com que o contato direto desses players com a indústria seja mais fácil. Observando como exemplo o mercado de farmácias, conforme figura 4, verifica-se que o faturamento das redes já representa mais da metade (55,6%) do faturamento de farmácias. Além disso, o crescimento do número de farmácias de redes é o mais forte do segmento, 12,6%. Nem todas as redes de farmácia compram atualmente de forma direta das indústrias, mas podemos imaginar que isso é uma tendência forte do setor para os próximos anos. Segundo o Panorama ILOS de Supply Chain para Saúde, as farmácias indicaram essa intenção com intuito principal de obter melhores preços. Vale termos em mente que essa relação direta da indústria com as redes de farmácias muda o perfil de custos logísticos da indústria, dado que ela sai de um perfil muito concentrado para outro mais capilar e mais caro. Claro que existe um trade off com a margem do produto e relacionamento mais próximo ao cliente, mas como a margem e o custo logístico normalmente estão em áreas e indicadores distintos, é comum uma tensão nesses momentos de mudança.


Figura 4 – Mudança no perfil de farmácias no mercado brasileiro de 2012 a 2017 Fonte: ABRAFARMA, 2017


Além do crescimento das redes, vemos também um movimento forte de farmácia se associando. As associações de farmácia conseguem negociar diretamente com a indústria a compra de medicamento. Suas dificuldades, no entanto, estão nas soluções logísticas para entrega, dado que as associações não têm um CD para entrega. Normalmente, apesar da negociação da tabela de preço ser feita diretamente via indústria a entrega acaba por ser negociada via distribuidor, dado sua capilaridade. Nos EUA, se ve uma situação onde pequenos players buscam juntar-se a grupos de compra, conhecidos como GPO, através do qual negociam preço com a indústria. A diferença é que em muitos casos o GPO também negocia preços com prestadores de serviços logísticos ou prestam serviços logísticos para reduzir custos de entregas tanto as muitas pequenas farmácias quanto também médicos e clínicas. No Brasil, a formação do primeiro GPO está ocorrendo dentro do contexto dos hospitais, junto com a ANAHP, corroborando ainda mais para a mudança no perfil de entrega da indústria.


Mudanças nas práticas logísticas:

Visualizamos nos últimos anos mudanças na forma de operar e nas discussões sobre relacionamento na cadeia de medicamentos dentro do segmento de saúde. No caso das indústrias farmacêuticas, alterações no modelo de contratação de transportes tem crescido, principalmente, no contexto das grandes empresas, onde há um processo de migração do pagamento do transportador de % da NF para R$/kg/km. Segundo o Panorama de Supply Chain para Saúde, atualmente 76% das indústrias ainda pagam transportadores como % da NF. Essa mudança exige maiores controles do ponto de vista de peso dos produtos (que anteriormente não existiam), mas são fundamentais para que os savings obtidos com melhorias no agrupamento de pedidos, sinergias, etc, sejam automaticamente repassadas para a indústria e não sendo mais absorvidos pelas transportadoras. Outra vantagem vislumbrada com essa mudança está na possibilidade de trabalhar melhor o trade-off de custos com a abertura de novos CD, situação que não era possível com o pagamento feito em % da NF. Essa questão se torna crucial quando se pensa em melhorar nível de serviço através da abertura de novos CDs e com isso obter também reduções de custos de transporte que cubram o possível custo adicional com o novo CD. Outra das alterações percebidas para indústria farmacêutica é na contratação de centros de distribuição. Existe uma tendência de busca por melhoria de nível de serviço e redução de custos que tem levado a muitas empresas que tinham o contrato de armazenagem e transporte com um único player desvincularem esses contratos, mantendo um contrato de armazenagem e vários contratos de transporte. Essa situação tem exigido a criação de áreas de transportes que as vezes não existiam ou se dedicavam apenas a gestão de transporte de transferência. Sobre armazenagem podemos também observar que muitas empresas que tinham um CD próprio junto a fábrica estão começando a buscar um novo espaço fora do ambiente fabril para instalar seu CD, dado ao crescimento da produção que empurra a frente de logística para fora do espaço que antes estava disponível. Para as que já tiveram todo o espaço ocupado e continuam crescendo é o momento de buscar espaço também para novas fábricas. Essas alterações aumentam a complexidade de gestão logística e a busca por profissionais especializados, sendo muito comum a contratação de profissionais do segmento de bens de consumo, já habituados a esse tipo de contexto operacional onde o Centro de Distribuição é separado das plantas. Apesar dessas alterações, o perfil de operação dos CDs ainda é simples, principalmente, nas indústrias que trabalham com baixo número de skus e baixa quantidade de clientes. As operações de armazenagem mais sofisticadas são vistas nos distribuidores, onde o número de skus e quantidade de clientes é muito maior.



Figura 5 – Ações de curto prazo indicadas pelas indústria farmacêuticas para redução de custos logísticos (% de respostas por ação, Panorama de Supply Chain para Saúde, ILOS)


Distribuidores e grandes redes de farmácia ainda mantém um nível de terceirização mais baixo que a indústria, principalmente, nas empresas regionais. Empresas com atuação nacional terceirizam mais sua operação de transportes, porém mantém ainda suas operações de armazenagem própria. Do ponto de vista de TI, percebe-se um crescimento do interesse das industrias nos temas de gestão de transportes, gerenciamento de armazenagem/gestão estoques e S&OP.



Figura 6 – Uso e pretensão de uso quanto a sistemas para apoio a logística e gestão da cadeia (Panorama Supply Chain para Saúde, ILOS)



Conclusões

As mudanças no mercado de saúde, principalmente relacionadas a mudança de portfólio e perfil de clientes, tem trazido maior relevância para as discussões sobre logística e supply chain. Essa relevância tende a subir nos próximos anos, considerando que as mudanças ainda estão em processo de evolução. Isso gera uma busca por melhores profissionais e empresas associadas a logística e supply chain pelo setor. Essa mudança na relevância, gera uma pressão para redesenhos da operação logística, principalmente para a indústria e grandes redes.



Referências Bibliográficas


Panorama de Supply Chain para Saúde, ILOS Discussões realizadas no Fórum Internacional de Supply Chain, ILOS

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